Em si mesmo

Em si mesmo, viver é uma arte
E na arte de viver
É, simultaneamente, o homem:
O artista e o objeto de sua arte
Assim como: o escritor e a palavra.
Ronye Márcio

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sábado, outubro 04, 2014

A filosofia explica as grandes questões da humanidade.


BARROS FILHO, Clóvis de. A filosofia explica as grandes questões da humanidade. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
 


RESUMO
 

Barros Filho é Professor de Ética na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Professor de Filosofia Corporativa da HSM Educação (2013), Pesquisador e Consultor em Ética da UNESCO e Pesquisador e Conferencista pelo Espaço Ética. Também é colunista de Ética da Revista Filosofia Ciência & Vida. No seu livro que é dividido em oito capítulos e em cada vem com uma abordagem temática diferente: no primeiro capítulo é abordado sobre a ética e como isso se aplica à vida trazendo análises sobre a convivência a partir dela, já no segundo ele nos traz reflexões a respeito da moral e o bom conviver. No terceiro define e esclarece a noção de liberdade fazendo uma conjectura entre o homem e as consequências que ela nos traz quando a exercemos de forma errônea. No quarto o autor traz um panorama do que seja identidade e a construção do ser enquanto indivíduo. No quinto ele discorre a respeito do poder e o quanto esse poder influencia, provoca reações e as suas relações benéficas e maléficas na sociedade e no ser humano. Já no sexto capítulo Clóvis nos apresenta uma perfeita relação entre o poder e a dominação em que transforma as pessoas em disciplinados e submissos, daí surge a grande questão que é a justiça e a lei algo essencial para a manutenção desse poder e a conservação da submissão que são abordadas no sétimo e no último apresente o princípio da virtude que demonstra como o homem age em relação ao ser justo ou injusto de acordo com os preceitos morais e sociais.
 

CITAÇÕES: 1. ÉTICA: Para uma vida boa.
 

(...) ética, em geral, contém alguns arquivos básicos, dispõe de referências, crenças mais ou menos compartilhadas, até algumas certezas consolidadas. Tudo aprendido no embalo das experiências da vida, na contingência dos encontros com o mundo e na complexidade das relações estabelecidas com outras pessoas. (p. 12)
 

Max Weber – para citar o exemplo de apenas um dos analistas desta complexidade – distingue a ética de princípios ou de convicção da ética de responsabilidade. A última está fundada nos fins e a primeira nos meios, com propostas absolutamente inconciliáveis. Sem que se possa impor a quem quer que seja a adoção de uma ou de outra. (p. 21)

 
CITAÇÕES: 2. MORAL: Reflexões para viver
 

Todo homem – na singularidade de sua trajetória pessoal – vive situações que se convertem em problemas morais. Para resolvê-los, ele analisa possibilidades, pondera efeitos das possíveis condutas, formula juízos e acaba tomando finalmente uma decisão. No entanto, quando pretendemos que nossos juízos tenham validade que transcenda nossas singularidades, que possam ser aplicados para qualquer situação, passamos do pessoal para o impessoal, do particular para o genérico, da ação para uma filosofia da ação, da moral para a ética. (p. 27)
 

(...) o objeto da ética não é tanto a ação, mas tudo o que possa guiá-la, norteá-la. Em suma, a ética se dispõe ao estudo de um certo tipo de ação humana, normatizável pela razão e que doravante de- nominaremos ato moral. E que não se entenda esta norma como lei científica sobre o comportamento, como em algumas psicologias e sociologias. Mas como um conjunto de princípios seguidos livremente pelo agente. (p. 29)
 

“Afinal, ética e moral têm mais a ver com problematização da nossa convivência (...)” (p. 36)
 

CITAÇÕES: 3. LIBERDADE: A definição do homem e suas consequências.

 
“(...) uma vez que toda liberdade pressupõe soberania na hora de decidir, inclusive em relação às próprias vísceras, (...)” (p. 38-39)
 

“Enquanto há vida em seres ditos “moventes”, nunca é nula a liberdade de movimento.” (p. 40)
 

O direito, nos estados ditos democráticos – por intermédio das liberdades públicas garantidas constitucionalmente –, já cuidou em parte do problema. Afinal, esta liberdade de pensamento sobre a qual falamos é muito correlata à de informação, de expressão, de culto, etc. Todos nós sabemos que livre é o povo que fala o idioma da sua cultura, que cultua os deuses de sua fé, define o que é sagrado, materializa o absoluto em arte e faz suas escolhas. Delibera seus caminhos e, assim, define seus pontos de chegada e o que quer vir a ser um dia. (p. 41)


Mas graças a esse descolamento dos instintos, há essa liberdade frente à própria natureza, ao homem é facultado o direito de escolha. O tempo todo. Cabe ao homem inovar, criar, improvisar, exceder. Só o homem é capaz de exceder. E o excesso aqui não é pecaminoso. É libertador. E é esse descolamento em relação à própria natureza que permite ao homem descobrir soluções novas para situações inéditas. (p. 49)


CITAÇÕES: 4. IDENTIDADE: Quem somos nós?
 

“Identidade é algo que só importa para nós mesmos, em uma clara operação do pensamento humano.” (p. 59)
 

“Que permite in- formar aquilo que só nós somos – identidade pessoal – e o que somos junto com alguns outros – identidade coletiva –, como os que moram na mesma cidade, no mesmo país, de mesma etnia ou outro grupo qualquer.” (p. 60)

 
“Assim, interlocutores agem para se identificar. (...) Antecipam soluções não calcula- das, tendencialmente adequadas a condições objetivas de manifestação, como a idade presumida do interlocutor, sexo, indumentária, local do encontro, etc.” (p. 64)

 
“Esse conceito de pessoa é de um ser que tem um pensamento sobre si, consciência de si mesmo e de seus próprios pensamentos e percepções do mundo. Tudo isso guardando uma identidade graças à sua memória.” (p. 66)

 
“(...) a consciência acompanha sempre o pensamento, e que é esse que faz com que ele possa se nomear a si mesmo, e possa se distinguir de qualquer outra coisa pensante.” (p. 69)


“(...) a identidade é o resultado sempre provisório de um diálogo entre o social e o sujeito, entre as múltiplas representações enunciadas por esse último – e por ele flagradas – e a forma, sempre criativa e singular, pela qual as rearticula.” (p. 70-71)
 

CITAÇÕES: 5. PODER: Uma arte de relações e reações.

 
“É necessário que, de alguma forma, aceitemos que as regras e modos de tratamento dispensa- dos a uns não valem para outros. Em suma, devemos considerar as relações sociais marcadas por desigualdades.” (p. 76)

 
“Uma vez que o poder está baseado na desigualdade, não é à toa que aqueles que o exercem desenvolvam toda uma estética e rituais em torno de sua pessoa e de seus iguais, procurando manter esse acervo com unhas e dentes.” (p. 76)
 

“Estas atitudes apontam para uma premissa sociológica do poder, quando ele é o efeito de uma relação entre pessoas que interagem em condições de desigualdade.” (p. 77)

 
“As leis deveriam nortear a todos para a vida boa e não o contrário. Deveriam conter a sabedoria do que é bom para todos e não apenas o que é bom para alguns.” (p. 78)
 

Poder, para Platão e todos os que seguiram sua linha idealista de pensamento – que refletiram a questão do poder não a partir do que ele realmente é e de como realmente funciona, mas a partir de como tal poder deveria idealmente ser – algo diferente da dominação, que é sempre condenável, uma força exercida sobre outros de forma legítima. Podemos resumir assim: dominação é força ilegítima, poder é força legítima sobre os outros. (p. 78-79)
 

“Nicolau Maquiavel (...) pensou o poder a partir de uma perspectiva de legitimação (...), pois todo discurso de legitimação nada mais é que uma fala dirigida aos súditos e que torna possível sua dominação.” (p. 82)
 

“O poder é o resultado de um embate, de uma guerra. Tanto é que Maquiavel chega a afirmar que o conhecimento mais importante que um príncipe deve ter é o da arte da guerra. Não que ele vá necessariamente comandar exércitos em batalhas, mas porque na política tudo é guerra.” (p. 84)
 

“Ao apresentar regras sobre como conquistar e manter o poder, Maquiavel também deixa claro algo até então inédito, destacando que o exercer este poder não é propriamente um ato de liberdade.” (p. 86)
 

CITAÇÕES: 6. DOMINAÇÃO: Disciplinados e submissos.
 

“Foucault não foi o primeiro a tratar do poder a partir do ponto de vista daquilo que se faz enquanto se domina. Maquiavel teve a primazia neste aspecto.” (p. 90)
 

“Foucault deixa claro que é um erro tratar poder como um objeto. Poder não é algo que se tem, mas algo que se faz. Uma relação, portanto, e não uma coisa. (...) O poder é aquilo que o detentor da coroa e do cetro consegue infligir a outros.” (p. 90)
 

“A questão central para que se possa compreender o poder como uma relação não é propriamente entender porque alguém manda, mas sim porque quem obedece acata.” (p. 91)

 
“Foucault fala em genealogia do poder, isto é, da compreensão histórica de como determinados saberes foram consagrados como condições de possibilidade de dominação de uns sobre outros.” (p. 93)
 

“Disciplina, para Foucault, significa uma série de práticas de controle dos corpos no tempo e no espaço. Práticas e regras que dizem às pessoas como, onde e quando se comportar.” (p. 93)

 
“Foucault nos ensinou a olhar para outro lado quando se trata de compreender as relações de poder, (...) mas no que se faz e nas desculpas para fazer o que se faz quando se domina. Ele nos indicou como observar e tentar compreender a forma como pensam não os líderes, mas os liderados.” (p. 97)
 

“(...) há aqueles que, conscientemente, tentam dominar a todos pela imposição universal de seus valores e modo de vida. Valorar os saberes e práticas como certo e errado, bom e mau gosto e desqualificar os saberes e opiniões contrárias são as principais estratégias do jogo de imposição e de domínio.” (p. 99)
 

“A excepcional- idade nas relações é a violência, a força bruta que submete alguém. Poder não é força. Em suma, é submissão de uns a outros que, por sua vez, só podem subjugar na medida em que a submissão é compreendida.” (p. 102)
 

CITAÇÕES: 7. A JUSTIÇA E A LEI: Do sentimento à ideia.
 

“A justiça não poderia ser apenas um sentimento oposto ao da injustiça e tampouco uma ideia que não fosse reconhecida por todos como válida.” (p. 107)

 
“Sócrates quer demonstrar que a cidade será muito melhor para todos se as leis forem boas e justas, mas para isso elas deverão ser feitas pelos homens que são bons e justos. Só que a maioria das pessoas não é assim. Para ser bom e justo é preciso saber como as coisas são.” (p. 111)


“(...) para Platão a boa cidade (...) é aquela que possui bons cidadãos; então o bom político seria aquele que contribui para melhorar os homens, o que os torna mais virtuosos. Para tanto, seria preciso, antes, tornar-se virtuoso, conhecendo e cuidando de si mesmo.” (p. 114)
 

Podemos resumir a perspectiva platônica de justiça nos seguintes termos: 1) justiça é ajustamento ao cosmos. 2) Para estar ajustado ao cosmos e viver justamente, é preciso conhecer o seu lugar no cosmos. 3) Esse lugar é referente a um modelo metafísico de existência, um modo de vida válido para todos indistintamente. (p. 117)

 
CITAÇÕES: 8. VIRTUDE: O que faz o homem justo.
 

Antes, só seria bom juiz o conhecedor da essência da justiça, no caso, a ideia do bem. Mas para Aristóteles, em não sendo a justiça uma essência de coisa alguma, não haveria paradoxo algum em sermos juízes desconhecedores da essência do justo. Seríamos desconhecedores do inexistente. Mas o que nos tornaria capazes, então, de julgar justamente, de fazer da vida algo justo? (p. 121)

 
“(...) Platão, a justiça não seria o que faz o homem justo, pois a justiça não seria algo intrínseco à ação humana, mas algo ideal, de outro mundo.” (p. 122)

 
“Em resumo, a justiça aristotélica não é uma lei que transcende até nós, vinda do além, mas uma força ou princípio de ação que está em nós, um modo particular de ser e de agir que pode nos levar a viver bem.” (p. 123)

 
“Para Platão a justiça não seria uma virtude, mas uma ação compatível com o ideal de existência no cosmos. O resultado de uma espécie de dieta dos sentimentos.” (p. 125)
 

(...) Aristóteles acreditava que essa repressão não seria possível. É preciso ser justo sendo ao mesmo tempo um ser desejante e racional. Para isso é preciso ter não apenas uma das virtudes, como a sabedoria ou, no seu caso, a prudência, mas todas elas ao mesmo tempo. É preciso ser corajoso, prudente e temperado para ser também justo. (p. 126)

 
“Para Hume nossa mente ou espírito funcionaria segundo três princípios de organização das ideias ou pensamento: semelhança, contiguidade e causalidade.” (p. 129)
 

“Justiça que não é objetivamente definida em leis, mas relacionalmente definida por tomadas de posição havidas mais em função de um senti- mento do que da razão.” (p. 133)

  

CONSIDERAÇÕES FINAIS
 

A obra de um modo geral apresenta temáticas que fazem as pessoas refletirem a respeito da sua postura e reconstruir o seu pensamento mediante as reflexões apresentadas no livro. É com este ponto de vista que se pode perceber a importância da Filosofia para a construção do pensamento, no tocante a colocar em xeque toda a sua verdade impregnada pelas suas próprias verdades imbuída de valores sociais, políticos e religiosos.
A cada capítulo que se lê percebe-se que há uma abertura para reflexão entre a obra e o leitor, pois é na leitura que o leitor começa a se posicionar frente as suas crenças e valores construídos no seu processo de vida construindo assim a sua identidade e a sua mentalidade a respeito dos fatos que o cerca.
É neste princípio que A filosofia explica as grandes questões da humanidade, como obra, é de suma importância para os acadêmicos que queira criar uma consciência racional no mundo real e profissional, sendo assim é muito pertinente que a disciplina de Filosofia se utilize deste livro para gerar debate, reflexões e retomada de posições a partir da sua própria alteridade reconstruí-la.
Enquanto educador foi muito esclarecedor as partes que abriram os meus olhos referentes a questão de submissão, a relação de poder, a construção da identidade a partir dos conceitos vividos pela ética e moral e como a liberdade pode ser benéfica ou malévola de acordo com a tomada de decisão construindo assim a sua virtude perante o conceito de justiça e honestidade e como posso trabalhá-las para a ordem e o bem comum.
Partindo do ponto de vista anterior perceber-se o quanto Barros Filho contribuiu para a reconstrução das tomadas de decisão para melhor atender aos meus alunos. Se todos os educadores tivessem acesso a esta obra seria muito mais fácil chegar a uma solução mais palpável e condizente à realidade e, acima de tudo, a uma postura profissional mais segura e firme para melhor encaminhar os alunos na construção da sua própria identidade mais consciente e mais crítica de ante da sua realidade social.
 

Um comentário:

  1. Esse livro de Clóvis Barros, é maravilhoso para finalmente compreendermos a importância da filosofia em nossas vidas. Um livro dividido em oito capítulos mas com uma linguagem simples onde podemos entender a proposta de cada capítulo e como cada tema depende do outro. Nós humanos precisamos entender que ética e moral andam juntos quando bem trabalhados podemos ter moderação na liberdade e junto a ela construir nossa própria identidade. Outra questão muito interessante nesse livro, é a importância de se entender o significado de PODER e DOMINAÇÃO. Para que não nos sentirmos poderosos a ponto de tornar uma minoria submissa a esse poder e torná-los impotentes aos seus direitos deixando-os sempre abaixo do poder e com isso, passamos a gerar injustiças e gerando uma grande distorção do quem vem a ser justiça e lei. Livro maravilhoso que vale a pena ler.

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