BARROS FILHO, Clóvis de. A filosofia explica as grandes questões da
humanidade. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
RESUMO
Barros Filho é Professor de Ética na
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Professor de Filosofia
Corporativa da HSM Educação (2013), Pesquisador e Consultor em Ética da UNESCO
e Pesquisador e Conferencista pelo Espaço Ética. Também é colunista de Ética da
Revista Filosofia Ciência & Vida. No seu livro que é dividido em oito
capítulos e em cada vem com uma abordagem temática diferente: no primeiro
capítulo é abordado sobre a ética e como isso se aplica à vida trazendo
análises sobre a convivência a partir dela, já no segundo ele nos traz
reflexões a respeito da moral e o bom conviver. No terceiro define e esclarece
a noção de liberdade fazendo uma conjectura entre o homem e as consequências
que ela nos traz quando a exercemos de forma errônea. No quarto o autor traz um
panorama do que seja identidade e a construção do ser enquanto indivíduo. No
quinto ele discorre a respeito do poder e o quanto esse poder influencia,
provoca reações e as suas relações benéficas e maléficas na sociedade e no ser
humano. Já no sexto capítulo Clóvis nos apresenta uma perfeita relação entre o
poder e a dominação em que transforma as pessoas em disciplinados e submissos,
daí surge a grande questão que é a justiça e a lei algo essencial para a
manutenção desse poder e a conservação da submissão que são abordadas no sétimo
e no último apresente o princípio da virtude que demonstra como o homem age em
relação ao ser justo ou injusto de acordo com os preceitos morais e sociais.
CITAÇÕES:
1. ÉTICA: Para uma vida boa.
(...)
ética, em geral, contém alguns arquivos básicos, dispõe de referências, crenças
mais ou menos compartilhadas, até algumas certezas consolidadas. Tudo aprendido
no embalo das experiências da vida, na contingência dos encontros com o mundo e
na complexidade das relações estabelecidas com outras pessoas. (p. 12)
Max
Weber – para citar o exemplo de apenas um dos analistas desta complexidade –
distingue a ética de princípios ou de convicção da ética de responsabilidade. A
última está fundada nos fins e a primeira nos meios, com propostas
absolutamente inconciliáveis. Sem que se possa impor a quem quer que seja a
adoção de uma ou de outra. (p. 21)
CITAÇÕES:
2. MORAL: Reflexões para
viver
Todo
homem – na singularidade de sua trajetória pessoal – vive situações que se
convertem em problemas morais. Para resolvê-los, ele analisa possibilidades,
pondera efeitos das possíveis condutas, formula juízos e acaba tomando
finalmente uma decisão. No entanto, quando pretendemos que nossos juízos tenham
validade que transcenda nossas singularidades, que possam ser aplicados para
qualquer situação, passamos do pessoal para o impessoal, do particular para o
genérico, da ação para uma filosofia da ação, da moral para a ética. (p. 27)
(...)
o objeto da ética não é tanto a ação, mas tudo o que possa guiá-la, norteá-la.
Em suma, a ética se dispõe ao estudo de um certo tipo de ação humana,
normatizável pela razão e que doravante de- nominaremos ato moral. E que não se
entenda esta norma como lei científica sobre o comportamento, como em algumas
psicologias e sociologias. Mas como um conjunto de princípios seguidos
livremente pelo agente. (p. 29)
“Afinal, ética e moral têm mais a ver
com problematização da nossa convivência (...)” (p. 36)
CITAÇÕES:
3. LIBERDADE: A definição do homem e suas consequências.
“(...) uma vez que toda liberdade
pressupõe soberania na hora de decidir, inclusive em relação às próprias
vísceras, (...)” (p. 38-39)
“Enquanto há vida em seres ditos
“moventes”, nunca é nula a liberdade de movimento.” (p. 40)
O
direito, nos estados ditos democráticos – por intermédio das liberdades
públicas garantidas constitucionalmente –, já cuidou em parte do problema.
Afinal, esta liberdade de pensamento sobre a qual falamos é muito correlata à
de informação, de expressão, de culto, etc. Todos nós sabemos que livre é o
povo que fala o idioma da sua cultura, que cultua os deuses de sua fé, define o
que é sagrado, materializa o absoluto em arte e faz suas escolhas. Delibera
seus caminhos e, assim, define seus pontos de chegada e o que quer vir a ser um
dia. (p. 41)
Mas
graças a esse descolamento dos instintos, há essa liberdade frente à própria
natureza, ao homem é facultado o direito de escolha. O tempo todo. Cabe ao
homem inovar, criar, improvisar, exceder. Só o homem é capaz de exceder. E o
excesso aqui não é pecaminoso. É libertador. E é esse descolamento em relação à
própria natureza que permite ao homem descobrir soluções novas para situações
inéditas. (p. 49)
CITAÇÕES:
4. IDENTIDADE: Quem somos nós?
“Identidade é algo que só importa para
nós mesmos, em uma clara operação do pensamento humano.” (p. 59)
“Que permite in- formar aquilo que só
nós somos – identidade pessoal – e o que somos junto com alguns outros –
identidade coletiva –, como os que moram na mesma cidade, no mesmo país, de
mesma etnia ou outro grupo qualquer.” (p. 60)
“Assim, interlocutores agem para se
identificar. (...) Antecipam soluções não calcula- das, tendencialmente
adequadas a condições objetivas de manifestação, como a idade presumida do
interlocutor, sexo, indumentária, local do encontro, etc.” (p. 64)
“Esse conceito de pessoa é de um ser que
tem um pensamento sobre si, consciência de si mesmo e de seus próprios
pensamentos e percepções do mundo. Tudo isso guardando uma identidade graças à
sua memória.” (p. 66)
“(...) a consciência acompanha sempre o
pensamento, e que é esse que faz com que ele possa se nomear a si mesmo, e
possa se distinguir de qualquer outra coisa pensante.” (p. 69)
“(...) a identidade é o resultado sempre
provisório de um diálogo entre o social e o sujeito, entre as múltiplas
representações enunciadas por esse último – e por ele flagradas – e a forma,
sempre criativa e singular, pela qual as rearticula.” (p. 70-71)
CITAÇÕES:
5. PODER: Uma arte de relações e reações.
“É necessário que, de alguma forma,
aceitemos que as regras e modos de tratamento dispensa- dos a uns não valem
para outros. Em suma, devemos considerar as relações sociais marcadas por
desigualdades.” (p. 76)
“Uma vez que o poder está baseado na
desigualdade, não é à toa que aqueles que o exercem desenvolvam toda uma
estética e rituais em torno de sua pessoa e de seus iguais, procurando manter
esse acervo com unhas e dentes.” (p. 76)
“Estas atitudes apontam para uma
premissa sociológica do poder, quando ele é o efeito de uma relação entre
pessoas que interagem em condições de desigualdade.” (p. 77)
“As leis deveriam nortear a todos para a
vida boa e não o contrário. Deveriam conter a sabedoria do que é bom para todos
e não apenas o que é bom para alguns.” (p. 78)
Poder,
para Platão e todos os que seguiram sua linha idealista de pensamento – que
refletiram a questão do poder não a partir do que ele realmente é e de como
realmente funciona, mas a partir de como tal poder deveria idealmente ser –
algo diferente da dominação, que é sempre condenável, uma força exercida sobre
outros de forma legítima. Podemos resumir assim: dominação é força ilegítima,
poder é força legítima sobre os outros. (p. 78-79)
“Nicolau Maquiavel (...) pensou o poder
a partir de uma perspectiva de legitimação (...), pois todo discurso de
legitimação nada mais é que uma fala dirigida aos súditos e que torna possível
sua dominação.” (p. 82)
“O poder é o resultado de um embate, de
uma guerra. Tanto é que Maquiavel chega a afirmar que o conhecimento mais
importante que um príncipe deve ter é o da arte da guerra. Não que ele vá
necessariamente comandar exércitos em batalhas, mas porque na política tudo é
guerra.” (p. 84)
“Ao apresentar regras sobre como
conquistar e manter o poder, Maquiavel também deixa claro algo até então
inédito, destacando que o exercer este poder não é propriamente um ato de
liberdade.” (p. 86)
CITAÇÕES:
6. DOMINAÇÃO:
Disciplinados e submissos.
“Foucault não foi o primeiro a tratar do
poder a partir do ponto de vista daquilo que se faz enquanto se domina. Maquiavel
teve a primazia neste aspecto.” (p. 90)
“Foucault deixa claro que é um erro
tratar poder como um objeto. Poder não é algo que se tem, mas algo que se faz.
Uma relação, portanto, e não uma coisa. (...) O poder é aquilo
que o detentor da coroa e do cetro consegue infligir a outros.” (p. 90)
“A questão central para que se possa
compreender o poder como uma relação não é propriamente entender porque alguém
manda, mas sim porque quem obedece acata.” (p. 91)
“Foucault fala em genealogia do poder, isto
é, da compreensão histórica de como determinados saberes foram consagrados como
condições de possibilidade de dominação de uns sobre outros.” (p. 93)
“Disciplina, para Foucault, significa
uma série de práticas de controle dos corpos no tempo e no espaço. Práticas e
regras que dizem às pessoas como, onde e quando se comportar.” (p. 93)
“Foucault nos ensinou a olhar para outro
lado quando se trata de compreender as relações de poder, (...) mas no que se
faz e nas desculpas para fazer o que se faz quando se domina. Ele nos indicou
como observar e tentar compreender a forma como pensam não os líderes, mas os
liderados.” (p. 97)
“(...) há aqueles que, conscientemente,
tentam dominar a todos pela imposição universal de seus valores e modo de vida.
Valorar os saberes e práticas como certo e errado, bom e mau gosto e
desqualificar os saberes e opiniões contrárias são as principais estratégias do
jogo de imposição e de domínio.” (p. 99)
“A excepcional- idade nas relações é a
violência, a força bruta que submete alguém. Poder não é força. Em suma, é
submissão de uns a outros que, por sua vez, só podem subjugar na medida em que
a submissão é compreendida.” (p. 102)
CITAÇÕES:
7. A
JUSTIÇA E A LEI: Do sentimento à ideia.
“A justiça não poderia ser apenas um
sentimento oposto ao da injustiça e tampouco uma ideia que não fosse
reconhecida por todos como válida.” (p. 107)
“Sócrates quer demonstrar que a cidade
será muito melhor para todos se as leis forem boas e justas, mas para isso elas
deverão ser feitas pelos homens que são bons e justos. Só que a maioria das
pessoas não é assim. Para ser bom e justo é preciso saber como as coisas são.” (p.
111)
“(...) para Platão a boa cidade (...) é aquela
que possui bons cidadãos; então o bom político seria aquele que contribui para
melhorar os homens, o que os torna mais virtuosos. Para tanto, seria preciso,
antes, tornar-se virtuoso, conhecendo e cuidando de si mesmo.” (p. 114)
Podemos
resumir a perspectiva platônica de justiça nos seguintes termos: 1) justiça é
ajustamento ao cosmos. 2) Para estar ajustado ao cosmos e viver justamente, é
preciso conhecer o seu lugar no cosmos. 3) Esse lugar é referente a um modelo
metafísico de existência, um modo de vida válido para todos indistintamente.
(p. 117)
CITAÇÕES:
8. VIRTUDE:
O que faz o homem justo.
Antes,
só seria bom juiz o conhecedor da essência da justiça, no caso, a ideia do bem.
Mas para Aristóteles, em não sendo a justiça uma essência de coisa alguma, não
haveria paradoxo algum em sermos juízes desconhecedores da essência do justo.
Seríamos desconhecedores do inexistente. Mas o que nos tornaria capazes, então,
de julgar justamente, de fazer da vida algo justo? (p. 121)
“(...) Platão, a justiça não seria o que
faz o homem justo, pois a justiça não seria algo intrínseco à ação humana, mas
algo ideal, de outro mundo.” (p. 122)
“Em resumo, a justiça aristotélica não é
uma lei que transcende até nós, vinda do além, mas uma força ou princípio de
ação que está em nós, um modo particular de ser e de agir que pode nos levar a
viver bem.” (p. 123)
“Para Platão a justiça não seria uma
virtude, mas uma ação compatível com o ideal de existência no cosmos. O
resultado de uma espécie de dieta dos sentimentos.” (p. 125)
(...)
Aristóteles acreditava que essa repressão não seria possível. É preciso ser
justo sendo ao mesmo tempo um ser desejante e racional. Para isso é preciso ter
não apenas uma das virtudes, como a sabedoria ou, no seu caso, a prudência, mas
todas elas ao mesmo tempo. É preciso ser corajoso, prudente e temperado para
ser também justo. (p. 126)
“Para Hume nossa mente ou espírito
funcionaria segundo três princípios de organização das ideias ou pensamento:
semelhança, contiguidade e causalidade.” (p. 129)
“Justiça que não é objetivamente
definida em leis, mas relacionalmente definida por tomadas de posição havidas
mais em função de um senti- mento do que da razão.” (p. 133)
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A obra de um modo geral
apresenta temáticas que fazem as pessoas refletirem a respeito da sua postura e
reconstruir o seu pensamento mediante as reflexões apresentadas no livro. É com
este ponto de vista que se pode perceber a importância da Filosofia para a
construção do pensamento, no tocante a colocar em xeque toda a sua verdade
impregnada pelas suas próprias verdades imbuída de valores sociais, políticos e
religiosos.
A cada capítulo que se
lê percebe-se que há uma abertura para reflexão entre a obra e o leitor, pois é
na leitura que o leitor começa a se posicionar frente as suas crenças e valores
construídos no seu processo de vida construindo assim a sua identidade e a sua
mentalidade a respeito dos fatos que o cerca.
É neste princípio que A filosofia
explica as grandes questões da humanidade,
como obra, é de suma importância para os acadêmicos que queira criar uma
consciência racional no mundo real e profissional, sendo assim é muito
pertinente que a disciplina de Filosofia se utilize deste livro para gerar
debate, reflexões e retomada de posições a partir da sua própria alteridade
reconstruí-la.
Enquanto
educador foi muito esclarecedor as partes que abriram os meus olhos referentes
a questão de submissão, a relação de poder, a construção da identidade a partir
dos conceitos vividos pela ética e moral e como a liberdade pode ser benéfica
ou malévola de acordo com a tomada de decisão construindo assim a sua virtude
perante o conceito de justiça e honestidade e como posso trabalhá-las para a
ordem e o bem comum.
Partindo
do ponto de vista anterior perceber-se o quanto Barros Filho contribuiu para a
reconstrução das tomadas de decisão para melhor atender aos meus alunos. Se
todos os educadores tivessem acesso a esta obra seria muito mais fácil chegar a
uma solução mais palpável e condizente à realidade e, acima de tudo, a uma
postura profissional mais segura e firme para melhor encaminhar os alunos na
construção da sua própria identidade mais consciente e mais crítica de ante da
sua realidade social.
Esse livro de Clóvis Barros, é maravilhoso para finalmente compreendermos a importância da filosofia em nossas vidas. Um livro dividido em oito capítulos mas com uma linguagem simples onde podemos entender a proposta de cada capítulo e como cada tema depende do outro. Nós humanos precisamos entender que ética e moral andam juntos quando bem trabalhados podemos ter moderação na liberdade e junto a ela construir nossa própria identidade. Outra questão muito interessante nesse livro, é a importância de se entender o significado de PODER e DOMINAÇÃO. Para que não nos sentirmos poderosos a ponto de tornar uma minoria submissa a esse poder e torná-los impotentes aos seus direitos deixando-os sempre abaixo do poder e com isso, passamos a gerar injustiças e gerando uma grande distorção do quem vem a ser justiça e lei. Livro maravilhoso que vale a pena ler.
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